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Capitulo 4 – Despedida dos irmãos Goiabada Power

Choveu a noite toda…usei o saco de emergência para me aquecer…A Lilian, ao acordar entrou em desespero, começou a chorar, porque tinha que colocar aquela roupa molhada de novo, meias ensopadas e congeladas. Realmente a situação estava crítica!!!  Mas relamente a Lilian mostrou a que veio, que mulher de fibra . Ela e o Marco começaram a andar, conversando pra colocar a cabeça no lugar. Anda pra lá, anda pra cá e nada de orientação. Nada batia com nada. No fim, descobrimos que estávamos na trilha certa, que era só continuar em frente e que estaria tudo bem. Ai, nada como a luz do dia!!! Mais pra frente, descobrimos que a Baiana na verdade era Baiano. A Baiana precisou parar para um “número 1” e aí descobrimos que ELA era ELE. Foi muito engraçado!!!
Chegamos à transição do posto de gasolina. Parecia uma procissão. Quatro equipes, alguns cavalos e todos andando enfileirados, pra tentar fugir da lama. No posto, na quarta-feira, tomei meu primeiro banho quente.
Seguimos (GuaranisUirapuru e Goiabada Power) de bicicleta para o maior trecho de bike da prova, de 74 km. Pra variar, as condições da estrada eram péssimas, muita lama, pedregulhos e poças d’água. Num clima muito legal e descontraído, pedalávamos na medida do possível. Alguns tropeços e…. uma fatalidade… Em alguns trechos desviávamos pela grama lateral à rua, pra tentar fugir da lama.Ecomotion 7 Num deles, o Márcio (capitão e navegador da Goiabada) perdeu tração ao tentar voltar pra rua, o guidão girou e ele caiu sobre o bar hand, atingindo suas costelas. No chão, ele tinha grande dificuldade de respirar. A Dri, que além de companheira de equipe é esposa dele, entrou em desespero, chorando, gritando e até chacoalhando o pobre coitado que mal conseguia respirar. O Robinson a afastou e nós tentamos ajudá-lo na medida do possível. Demos um remédio pra aliviar a dor e o deixamos se recuperando, com muita dor e tentando não prever o que todos mais temiam. Quando estamos numa prova dessas, o pior não é se machucar, quebrar costelas ou qualquer coisa assim. O pior é não poder continuar!!! E, infelizmente, foi o que aconteceu. A Goiabada Power, abriu o rádio de emergência e, por conseqüência, estava fora da prova. Conseguimos ajuda de um local, que, por muita sorte, morava perto de onde havia ocorrido o acidente. Durante toda a prova, raramente passávamos por casas, vilas ou por qualquer sinal de vida humana. Por sorte, os Goiabadas puderam ficar abrigados, no quentinho do lar de uma família hospitaleira, enquanto aguardavam o socorro chegar.
Já sem ter o que fazer, nos  despedimos com muita dor no coração e carregados de emoção, com lágrimas escorrendo e com a missão de ser a única equipe Selva Aventura a cruzar a linha de chegada. A essa altura a equipe Selva NSK corria desrankeada, já que a Carol teve um sério problema no joelho, o que fez com que pedalasse por 30 km com uma perna só, até que não agüentasse de dor e desistisse da prova.
Continuamos pedalando, arrasados com o ocorrido, mas determinados a irmos o mais longe possível. Tinhamos que honra-los. O frio já estava insuportável, uma neblina tapava nossa visão em alguns trechos e, pra piorar, a bike da Lilian quebrou. Com tanto barro, o câmbio da entortou. Tentamos arrumar, mas o frio não deixava. Sem a marcha mais leve a Lilian seguiu fazendo força nas pernas.
Pedalamos até à sede do Ibama, na noite mais fria da semana. O frio doía tanto, que parecia cortar. A bike do Robinson já estava sem freios, o que fazia com que tivesse que redobrar a atenção nas descidas. A areia, a lama e sei lá mais o quê já tinham destruído nossas bicicletas. A cada quilômetro, novos problemas.
Chegamos ao Ibama, onde encontramos o Luís (PC), que nos informou do cancelamento de dois PCs por causa do alto nível da água do rio que deveríamos cortar. Disse que uns malucos, sem roupas, atravessaram o rio, amarrados por uma corda na cintura e ainda carregando as bicicletas. Os malucos eram os os Selva, que levam à sério a expressão: “Quanto pior, melhor!”. A partir de então, teríamos que seguir por um caminho alternativo, porém não mais curto.
Diante da situação de frio insuportável, aceitamos a sugestão do Luís de ficarmos na sede, onde havia uma lareira à nossa espera. Foi a nossa salvação e a melhor noite da prova. Pela manhã, já acompanhados da On the Rocks, soubemos que a organização autorizou fazermos da sede do Ibama um PO. Acreditamos que o Luís deu uma forcinha pra isso. O dia foi realmente puxado…fisica e emocionalmente…só de escrever sinto o cheiro da lama e o barulho da chuva no capacete!

Capitulo 3 – LAMA, FRIO e uma égua

Seguimos de bike rumo ao primeiro grande down hill da prova.Ecomotion Pro 2005 - Serras Ga�chas_1248612405486
De novo, o visual era incrível. Lá embaixo, áreas alagadas, que imaginamos ser plantações de arroz. Começamos a descida. interminável!!! Dezenas de curvas perigosas, muito cascalho e muita lama.
Passamos por mais um PC e continuamos a descer. Na base, estávamos de volta à Praia Grande, município que já tínhamos passado na segunda-feira. Apesar de voltarmos àquela cidade, não passamos, em nenhum momento, por lugares repetidos. Tudo era novidade. Menos, é claro, o frio, a chuva e a lama. Ecomotion Pro 2005 - Serras Ga�chas_1248610793048
Na transição seguinte aguardaríamos nossos amigos da Goiabada Power. Havíamos combinado, no AT anterior, que seguiríamos juntos, como uma grande família Selva Aventura. Esperamos descansando e eu roubando umas almôndegas que o Glaudião (apoio da Goiabada e também aluno Selva) estava preparando pra eles. Tudo tinha virado uma grande festa: equipes e apoios numa grande sintonia. Não estávamos numa competição e sim numa disputa pra superarmos nossos limites individuais, acrescido de uma grande união de amizade e companheirismo.
Saímos para o trekking, os oito. Papo renovado, novas piadas, novos ânimos e, claro, chuva, lama e frio.
Começamos a caminhada, já no final da tarde. Algum tempo depois, no escuro, pára um carro da organização, trazendo uma equipe de carona: os Ratos de Trilha. O cidadão que dirigia o veículo, desce e nos sugere: “Vocês podem voltar, seguir com os apoios por seis horas de carro ou continuar andando e fazer a trilha em três horas. Vocês estão atrasando. Se eu quiser faço como fiz com os portugueses. Já barrei eles no AT anterior”. O cara queria ser tipo ‘O poderoso chefão’. Ignoramos! Afinal, em nenhum momento pensamos em pegar carona com os apoios. Do nada surge um cara, tentando nos confundir e ainda dizendo que não sofreríamos penalização se pegássemos carona.

A qualidade é ruim, mas dadas as condições tá ótimo!

A qualidade é ruim, mas dadas as condições tá ótimo!

Seguimos andando e chegamos num rio. Havia uma ponte, como todas as da região era quase no nível do rio, mas com a chuva, tudo já era uma coisa só. Os garotos da Ratos de Trilha, que já tinham passado, voltaram e numa corrente humana atravessamos a correnteza. Ufa!
No PC, depois de muita confusão por causa do “poderoso chefão”, a Carol (PC) nos deu algumas orientações e afirmou que a trilha seria feita no MÍNIMO em sete horas e não em três, como aquele cidadão havia falado. Coitada, teve que ouvir um monte, até que conseguisse desfazer a confusão.
Esperamos pela On the Rocks, que estava chegando, conforme o rádio. Pegamos nossa égua, a Baiana segundo o local informou, (cada equipe seguiria este trecho puxando um cavalo, que levaria no lombo uns 30 quilos de comida. Isto para lembrar os tropeiros, que vaziam isso nos tempos remotos. Coitado dos cavalos!!!) e começamos a subida, que mais parecia um paredão. Pra piorar, a trilha era muito estreita, sinuosa e completamente enlameada. Sobe, sobe e sobe. Pobres cavalinhos. No caminho, cavalos empacados, deixados por outras equipes e malas de comidas deixadas pelo chão. Ecomotion Pro 2005 - Serras Ga�chas_1248611123126

Já no topo, a Baiana pisa no meu pé e não sai nem com reza brava. Fiquei calmo e pedi ajuda ao Alê, que nem dá bola. Acho que não fui tão enfatico. Depois de alguns “Alê, vem aqui por favor!!!”, até que grito: “Alê, é sério, a porra do cavalo tá em cima do meu pé!!!”. e ele responde. Por que não disse antes?

Achei que era final de prova. Tirei meu tenis e achei que tivesse quebrado meu pé…mas não tudo ok…O Marco assumiu a Baiana e começamos a atolar no lamaçal. Em alguns trechos, a lama chegava à altura dos joelhos. Nossa progressão estava muito lenta. Enquanto nos preocupávamos em pisar no atoleiro menos ruim possível, o Marco conversava com a Baiana: “Baiana vem pra cá”; “Aí não, Baiana, tá errado”; “Baiana, vai devagar”; “Baiana, já disse que é por aqui!!!”. E assim foi, até o final do atoleiro.
Com a lama, perdemos a noção de distância percorrida e começamos a ficar desorientados com a navegação. A Lilian começo a ter muito frio, ela  andava de lá pra cá, feito barata-tonta, uma andarilha sem rumo e praticamente sem consciência. Essa foi a pior noite da prova!
Sem rumo, paramos pra dormir.

Capitulo 2 – mais de 24 horas perdidos

Com o dia lindo, céu limpo e Sol a pino, chegamos ao que deveria ser a entrada da trilha para iniciarmos a subida para o cânion. Um carro da organização deixou, largados à própria sorte, um cinegrafista e um fotógrafo argentinos, para nos acompanhar. Os dois começaram a subir, nos acompanhando. Coitados! No caminho encontramos com a Família Extrema, que seriam nossos amigos e, mais pra frente, salvadores. Trocamos algumas informações, seguimos juntos até um trecho que não deu em nada e começamos a descer novamente até a base. Encontramos com os portugueses e outras equipes que estavam subindo.

Marco e Robinson tentando achar a trilha

Marco e Robinson tentando achar a trilha

Nos separamos e depois de algum tempo voltamos a subir por outra trilha, que condizia melhor com o mapa. Encontramos com a galera da On the Rocks, que também se tornaram nossos grandes amigos e companheiros por quase toda a prova. Seguimos juntos subindo, navegando, conversando e dando boas risadas. Depois de horas, chegamos ao topo do primeiro cânion. Eles pararam pra descansar e nós seguimos antes que escurecesse. Isso mesmo…o dia passou inteiro conosco tentando achar a subida dos Canions!Canion Fortaleza 04 pequena.jpg (imagem JPEG, 448×336 pixels)_1248394988795


No alto do cânion, vimos uma das paisagens mais exuberantes do mundo. Um imenso paredão de rochas cortava o horizonte. Uma vegetação típica da região cortava os rochedos, que davam origem a imensos abismos. Lá em cima, uma vegetação rasteira, se unia aos que os locais chamam de turfeiras, outro tipo de vegetação que nasce em uma espécie de charco e que nos acompanharia por toda a prova. Lá embaixo, tudo o que já tínhamos deixado para trás.
Continuamos andando, rumo ao mirante, o ponto mais alto daquele trecho e onde estava localizado o PC seguinte. Infelizmente, já tinha caído à noite e as coisas se transformam, a paisagem já não era visível e, apesar da noite limpa, era semana de Lua Nova. Já sem saber onde estava a trilha, encontramos com a Família Extrema novamente, que estava indo ao PC do mirante. Gritamos e fomos ao encontro deles, já que estavam na trilha e nós não. Nos localizamos e nos despedimos.

Foto da maquina descartavel!

Foto da maquina descartavel!

Pouco à frente, resolvemos tentar cortar um caminho, mas falhamos por não confiar na distância e no azimute traçado. Já desorientados, uma nova situação complicada: Como ainda não tínhamos dormido, desde a largada, o sono pegou o Marco de jeito e ele começou a andar como se estivesse bêbado. Eu ia atrás orientando: “vai pra esquerda, vai pra direita”. Eu e o Robinson tentavamos navegar e a Lilian tentava fazer com que o Marco continuasse andando. Uma ventania muito forte batia naquela hora. Num determinado momento, o Marco começou a andar sem rumo em direção ao abismo. Graças a Deus, estávamos atentos e gritamos pra ele parar e mudar de direção. Paramos por 20 minutos pra ver se ele melhorava.
Andando, conseguimos achar uma cerca e uma trilha, que aparentemente não dava em nada. Por ser uma região de muitos pastos, nem tudo era trilha. Pra piorar, nem casa, nem vila e nenhuma alma viva conseguimos encontrar em todo esse trecho.

As pardes que subimos

As pardes que subimos

Era uma imensidão de vazio, ainda preservado. Algumas horas depois, já com a ameaça de chuva, a Família Extrema nos alcançou e começamos a bater-cabeça juntos. Debaixo de chuva, continuamos a caminhada que não dava em nada. Paramos num pequeno amontoado de árvores pra tentar dormir e esperar amanhecer. Eles estavam equipados com o tal bivac e nós, apesar de estarmos com saco-de-dormir optamos por não abri-los, já que ficariam encharcados e impossíveis de usá-los nas noites seguintes. Estendemos um lençol de emergência, ficamos os quatros sobre ele e nos cobrimos com um segundo enquanto vimamos muitos raios caindo. Para nossa sorte, estávamos acompanhados da Família Extrema, que faz jus ao nome FAMÍLIA. Já deitados, ele se levantou e nos cobriu com outros dois sacos, nos protegendo da chuva que caía sobre nossos rostos. Foi muito bacana…gente que você nunca viu se ajudando no meio do nada.
Dormimos por mais ou menos uma hora e meia e seguimos, já com o dia clareando e ainda de baixo de chuva. Depois de um tempo, chegamos ao PC.

Vimos nossos apois correndo em nossa direção…já não tinha muita gente…meu pai veio correndo….acho que foi a primeira vez que vi medo nos seus olhos..certamente ele não fazia ideéia de como seria essa corrida…afinal estavmos perdidos a mais de 24 horas….então trocamos de roupa, uma massa quente…e debaixo de muito barulho e palavras de incentivo…saimos com as bikes!


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